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OPINIÃO: a renovação da Seleção sob Carlo Ancelotti deve começar e terminar no meio-campo

Após a eliminação para a Noruega na Copa de 2026, Carlo Ancelotti inicia a renovação da Seleção contra a Austrália. O artigo argumenta que o verdadeiro problema brasileiro não está no ataque, mas na falta crônica de meio-campistas capazes de ditar o ritmo, evidenciada nas Copas de 2014, 2018 e 2022. Fatores como o sucesso ofensivo do país e a exportação de jogadores explicam essa carência, e jovens como Breno Bidon e Andrey Santos surgem como apostas.

Redação Prancheta Viva

O Brasil volta a campo nesta sexta-feira, às 7h (de Brasília), contra a Austrália, em Townsville. É o primeiro passo do ciclo de renovação comandado por Carlo Ancelotti após a eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 — uma das maiores decepções da história da Seleção. No último treino, o técnico esboçou o time com Vini Jr., Raphinha, Endrick e Estêvão entre os titulares. Mas o verdadeiro desafio do novo ciclo não está no ataque.

A convocação e o diagnóstico do treinador

Ancelotti chamou nove nomes que disputaram o Mundial, nove estreantes e outros oito que brigaram por vaga na Copa e ficaram de fora. A mensagem foi direta na primeira entrevista após a eliminação:

— Se surgirem jogadores novos, um meio-campista de muita qualidade, obviamente você pode jogar mais jogo de posse. Temos que observar a progressão dos novos meio-campistas. Acho que estamos muito bem cobertos na frente para o futuro, muito bem cobertos atrás. Temos que encontrar meio-campistas de nível.

O italiano também admitiu erros na Copa e encerrou o ciclo dos veteranos, com a ideia de "botar uma nova geração". Cafu saiu em defesa do trabalho e projetou um ciclo rumo a 2030.

Causa: três Copas, o mesmo problema

O histórico recente explica a urgência. A Seleção sempre teve grandes camisas 8: Didi ao lado de Zito, Gérson em 1970, Falcão em 1982, Dunga em 1994. Mas a partir dos anos 1990, a geração de atacantes passou a resolver sozinha a falta de saída de bola — e a formação do "pensador" do meio foi se perdendo.

  • 2014: contra a Alemanha, Khedira e Klose bloqueavam os zagueiros e Müller e Schweinsteiger fechavam o meio. Sem quem fazer o jogo rodar, David Luiz só tinha o lançamento. Mesmo perdendo por 2 a 0, o time insistiu no mesmo padrão e levou mais cinco gols.
  • 2018: contra a Bélgica, sem Renato Augusto — o maestro das Eliminatórias —, Neymar precisava buscar a bola, Fellaini fechava as linhas de passe e o ataque ficou isolado do meio-campo na derrota por 2 a 0.
  • 2022: a Croácia repetiu a receita. Paquetá, que nunca foi o pensador esperado, tinha que se afastar do gol porque Casemiro não conseguia dar o passe de qualidade. Com 0 a 0, quatro croatas tinham como missão travar o meio brasileiro.

As imagens conectadas por 10 anos, três Copas e cinco treinadores revelam um problema crônico: ninguém dá ritmo à posse quando o adversário fecha o centro.

Desenvolvimento: por que o Brasil parou de formar meias

Há teorias que, juntas, ajudam a entender. A primeira: o país foi vítima do próprio sucesso ofensivo. A partir dos anos 1990, o mercado passou a valorizar duplas de ataque e camisas 10 explosivos, e não mais um Falcão, um Zenon ou um Ademir da Guia. Com o jogo mais rápido pela preparação física, o camisa 8 tradicional sofreu — tanto que Parreira encaixou Zinho em 1994 como falso-ponta.

A segunda: a Lei Bosman, de 1995, facilitou a circulação de jogadores na Europa e enriqueceu os clubes compradores. O Brasil virou exportador. Ronaldinho Gaúcho foi para a Holanda e depois ao Barcelona; Kaká saiu do São Paulo para o Milan; Alexandre Pato se firmou no Inter e também foi para o Milan. Mas os meias? Hernanes, melhor volante do Brasileiro de 2008 e vendido à Lazio em 2010, nunca virou Top 10 mundial. Arthur não se firmou no Barcelona. E os clubes seguem nesse modelo: Rayan foi vendido ao Bournemouth com destino possível a um Arsenal ou Bayern de Munique. Não por maldade — Grêmio e Inter, com receitas reduzidas pelas enchentes, hoje brigam no Z-4 do Brasileirão. Futebol é um jogo de dinheiro.

Últimos acontecimentos: o que Ancelotti pode (e não pode) fazer

Os 36% de posse contra a Noruega foram intencionais, sem Paquetá e sem Neymar em condições ideais. Ancelotti sabe que não vai formar um novo Falcão nos treinos da Seleção, nem impedir que Palmeiras e Flamengo vendam seus pontas. O caminho é a coragem de testar: Breno Bidon, Andrey Santos, Gabriel Bontempo e outros jovens precisam de tempo para jogar e errar, antes que uma Copa os obrigue a resolver tudo de uma vez. O alvo é descobrir a dupla ideal para acompanhar Bruno Guimarães.

E a busca deve chegar aos clubes. Como o treinador disse, "é o clube que forma o talento" — cabe à CBF acompanhar de perto e dar atenção ao meio-campista que aprende a pensar o jogo, mesmo quando ainda não vale uma venda milionária.

O jogo contra a Austrália marca o início dessa fase de experimentação: a prioridade definida é clara, e o próximo ciclo será medido pela capacidade de transformar promessas do meio em donos do jogo.

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