Busca por renovação e herança africana: seleção italiana vive novo cenário na tentativa de retorno ao Mundial
A Itália, tetracampeã mundial, vive um novo cenário após ficar fora de três Copas consecutivas (2018, 2022 e 2026), todas eliminadas em playoffs. Com Mancini de volta ao comando e Ranieri como diretor, a Azzurra aposta em renovação com nove estreantes e seis descendentes de africanos, refletindo transformações demográficas no país. O desafio imediato é a Liga das Nações contra Bélgica, França e Turquia.
Redação Prancheta Viva
A origem: três eliminações seguidas em playoffs
Para um tetracampeão mundial, o número é brutal: a Itália está fora de três Copas do Mundo consecutivas — 2018, 2022 e 2026. E o pior: todas as vagas foram perdidas em mata-mata contra adversários teoricamente mais fracos. Em 2018, caiu diante da Suécia, que nem contava com Ibrahimovic, então afastado da seleção e recuperando-se de uma grave lesão. Em 2022, o vexame foi contra a Macedônia do Norte. E neste ano, a Bósnia eliminou a Azzurra nos pênaltis.
Naquela decisão contra a Bósnia, o jovem atacante Pio Esposito desperdiçou um dos pênaltis italianos. Em abril, em entrevista ao "Corriere della Sera", ele revelou ter procurado ajuda psicológica:
— Tive dificuldade para assimilar a decepção, fiquei olhando fixamente para um ponto e não conseguia entender o que tinha acontecido, fiquei em choque. Meu primeiro pensamento foi que eu havia decepcionado meus companheiros, o público, os amigos e a família. Há alguns meses comecei a trabalhar com um psicólogo esportivo.
A psicóloga esportiva Priscila Mendes, do Inter de Minas — clube parceiro oficial do Flamengo na formação de atletas —, resume o dilema: quando o medo de perder supera a vontade de competir, o jogador joga "mais preso", evita riscos e falha em ações que normalmente executa bem. O problema é que, na Itália, o tema é um tabu histórico. A FIGC não divulga nenhum trabalho psicológico na seleção, como explica Massimo Franchi, repórter do TuttoSport: se algo é feito, "está tudo em segredo".
A bagunça antes do recomeço
O novo ciclo nasceu envolto em polêmica. Giovanni Malagò, presidente da Federação Italiana (FIGC), definiu Maldini como dirigente e o brasileiro Leonardo como conselheiro. A primeira decisão da dupla foi barrada: Pirlo foi indicado como novo técnico, mas Malagò vetou o nome após enorme pressão popular, que apontava vínculos comerciais do ex-volante com uma estatal russa. Maldini e Leonardo não aceitaram e deixaram seus cargos.
Em poucos dias, toda a estrutura foi refeita: Claudio Ranieri assumiu como diretor de futebol e Roberto Mancini voltou ao comando da Azzurra. Detalhe que ajuda a explicar o ceticismo da torcida: Mancini foi justamente o técnico que não classificou o time para a Copa de 2022 — ainda que antes tenha conquistado a Euro 2021, provavelmente o único momento de alegria da seleção nos últimos 20 anos.
O desafio imediato: Liga das Nações pesada
Nesta sexta-feira, às 15h45 (de Brasília), a Itália recebe a Bélgica em casa e começa, oficialmente, a busca pelo retorno ao Mundial. O caminho é difícil: o grupo A1 da Liga das Nações ainda tem França e Turquia — as três adversárias disputaram a última Copa e nos últimos anos chegam melhor que os italianos. Após a estreia, o time de Mancini enfrenta Turquia e França como visitante, e fecha a sequência em casa, novamente contra os turcos.
Renovação forçada e um recorde inédito
A situação é tão crítica que uma geração inteira de torcedores italianos nunca viu o seu time disputar uma Copa. Do grupo de 34 convocados, apenas seis estavam no título da Eurocopa de 2021.
Mancini chamou nove estreantes: Pessina, Ghilardi, Romano, Sebastiano Esposito, Vergara, Kayode, Kouadio, Doumbia e Zoma. Seis jogadores da lista são descendentes de africanos (Vergara, Kayode, Kouadio, Doumbia, além do zagueiro Honest Anahor, do Crystal Palace, e o atacante Moise Kean) — algo comum na França, mas inédito na Itália. Segundo Franchi, é reflexo natural das transformações demográficas: por volta dos anos 1980, o país deixou de ser de emigração e virou um dos principais destinos de imigrantes da Europa.
— A Itália agora é cosmopolita, multidimensional etnicamente, como a Europa, como o Brasil, como a Austrália... Igual à França. É o mundo que muda. Isso também acontece nas equipes — analisa o repórter.
A pressa em renovar já levou a federação a buscar jogadores brasileiros e argentinos com passaporte italiano. E a lista tem um nome com sotaque carioca que interessa ao torcedor brasileiro: Samuele Inácio, de 18 anos, atacante do Borussia Dortmund e filho de Inácio Piá, ex-jogador brasileiro que fez carreira na Itália, com destaque no Napoli.
Onde a Itália está hoje
O diagnóstico do jornalista italiano fecha o quadro: o desinteresse chegou a tal ponto que os jovens italianos estão mais ligados em Jannik Sinner, número 1 do tênis, e em Kimi Antonelli, líder na Fórmula 1, do que na seleção.
— Não se fala de seleção italiana. Fala-se apenas de Juventus, Inter, Milan, Napoli, Roma. Os jovens não falam: "Vamos ganhar da Bélgica". É uma situação de crise — resume Franchi.
Mancini, então, começa sua segunda passagem com pressão máxima, credibilidade baixa e a torcida distrainda. A estrada até a próxima Copa passa obrigatoriamente pela Liga das Nações — e começa contra a Bélgica, nesta sexta-feira.
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