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A escassez de jovens talentos está colocando em risco a dominância mundial da seleção feminina dos Estados Unidos?

A eliminação nas oitavas do Mundial Sub-20 estendeu para 14 anos o jejum de títulos das americanas, reacendendo o alarme sobre o futuro da seleção principal. Embora os EUA tenham talento abundante, o problema está no sistema: a NWSL tem elencos curtos, sem copa nacional nem base estruturada, deixando jovens profissionais no banco. Emma Hayes defende que as jogadoras precisam jogar mais, seja nos EUA ou na Europa.

Redação Prancheta Viva

A eliminação nas oitavas de final do Mundial Sub-20 na semana passada estendeu para 14 anos o jejum de títulos das americanas na competição — e reacendeu o alarme sobre o futuro da seleção principal. Mas os dados contam uma história mais complexa do que o discurso de "crise no supplier": os Estados Unidos têm mais de 340 milhões de habitantes e alta participação de meninas no esporte. O talento existe. O que falta é sistema.

O pior momento foi em 2023, não agora

O ponto mais baixo da USWNT foi a eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2023, quando as autópsias da campanha apontaram falhas na formação — justamente nos anos de base das jogadoras. Desde então, o debate engordou a cada resultado ruim das categorias de jovem: eliminações na fase de grupos do Sub-20 em 2018 e 2022, terceiro lugar em 2024 (que hoje parece exceção) e agora mais uma saída nas oitavas. O time nunca venceu um Mundial Sub-17 e duas vezes sequer se classificou para o torneio.

O contraste com o passado é brutal. As americanas venceram o Sub-20 em 2002, 2008 — com Alex Morgan, Sydney Leroux, Alyssa Naeher e Meghan Klingenberg, treinadas pelo saudoso Tony DiCicco — e em 2012, com Crystal Dunn e Julie Ertz. Essas gerações viraram o núcleo dos títulos mundiais de 2015 e 2019, somando quatro Copas e cinco ouros olímpicos no total, o mais recente em 2024.

O técnico Emma Hayes apontou o dedo

Emma Hayes, técnica da seleção principal, disse à ESPN antes do torneio que estava "extremamente preocupada" com a formação naquela faixa de idade. Sua frase-resumo: "Precisamos acertar a categoria de 17 a 21 anos."

O paradoxo é que o problema não é falta de profissionalismo — é o contrário. As duas últimas convocações Sub-20 tiveram oito jogadoras profissionais cada, recorde histórico. Os três títulos anteriores foram conquistados por times 100% amadores a caminho da faculdade.

O caminho para virar profissional cedo é novo. Lindsey Heaps (então Horan) foi pioneira ao sair do Colorado direto do colégio para o Paris Saint-Germain. A porta abriu de vez em 2021, quando Olivia Moultrie processou a NWSL para poder assinar com o Portland Thorns aos 15 anos. Em 2022, a liga criou o mecanismo de elenco para jogadoras sub-18. Desde então, Moultrie, Claire Hutton, Lily Yohannes, Gisele Thompson e Alyssa Thompson chegaram à seleção principal ainda adolescentes; Sophia Wilson e Trinity Rodman abandonaram a faculdade ou a pularam.

Os truques do sistema: elenco curto, sem copa, sem base

Ser profissional cedo não garante jogar. A NWSL opera com elencos de apenas 22 a 26 jogadoras, não tem copa nacional para complementar a temporada e não possui sistema centralizado de categorias de base. A segunda divisão prometida pela liga não saiu do papel em 18 meses desde que foi anunciada. Resultado: muitas jovens profissionais ficam presas no banco.

As exceções provam a regra. Melanie Barcenas, do San Diego Wave, é o caso mais recente: assinou aos 15, está na quarta temporada e agora tem seis gols e uma assistência na temporada como titular consolidada. Curiosamente, ela era elegível para este Mundial Sub-20, mas ficou no clube na briga pelos playoffs — o torneio está fora das datas FIFA, e os clubes não são obrigados a liberar.

Segundo fontes ouvidas pela ESPN, a NWSL recentemente aprovou uma regra de desenvolvimento que permite aos clubes identificar e formar jovens, com possibilidade de assinatura futura com impacto reduzido no teto salarial (ou compensação se forem assinadas por outros clubes). Hayes defende ainda um sistema de empréstimos mais robusto entre a NWSL e a USL Super League, também sancionada como primeira divisão.

A receita de Hayes: jogar, em qualquer lugar

A mensagem de Hayes às jovens — inclusive no "Futures Camp" de janeiro, com as melhores jogadoras sub-23 — é direta: "Não me importa onde você joga, mas você precisa jogar." Ela compara com a Europa: "Se você vai para Noruega, Alemanha, Espanha, Inglaterra, elas todas jogam em idades mais jovens. Isso é um fato. Ir para o ambiente profissional é ótimo, mas não se você vai passar dois ou três anos no banco. Prefiro que vá para a faculdade e jogue."

Há também um problema de identidade coletiva. No 2 a 2 com o Japão na fase de grupos, os momentos de brilho vieram de lances individuais. As falhas defensivas contra o Japão e na derrota por 2 a 1 para a Itália (hoje semifinalista) vieram da desconexão entre jogadoras. Foi o mesmo diagnóstico do time de 2023: rígido taticamente, com jogadoras em isolamento. Hayes e a nova geração consertaram isso na seleção principal — Japão e Espanha, afinal, não superam os EUA em técnica, mas em conexão.

Em que pé estamos

O jejum de 14 anos no Sub-20 é sintoma, não sentença. O talent pool americano segue intacto; o que precisa de reforma é o encanamento entre os 17 e os 23 anos — mais minutos em jogos reais, elencos maiores, uma segunda divisão de verdade e mais integração entre NWSL, federação e faculdades. Enquanto esse gargalo não for destravado, eliminações precoces seguem sendo um risco real para a USWNT nas próximas competições maiores.

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