A Inglaterra deve imitar a Espanha ou abraçar o "caos" da Premier League?
A Inglaterra de Thomas Tuchel busca identidade após o bronze na Copa de 2026 e a derrota nas semifinais para a Argentina. O contraste entre o projeto England DNA, baseado na posse de bola, e o jogo físico e direto da Premier League divide opiniões. Anthony Gordon defende abraçar as forças inglesas, enquanto Tuchel admite abrir mão do controle pelo caos. O confronto contra a Espanha, campeã mundial, em Wembley será o primeiro termômetro rumo à Euro 2028 em casa.
Redação Prancheta Viva
A pergunta que ninguém conseguiu responder
Quando a FA contratou Thomas Tuchel, de 53 anos, o objetivo era claro: ensinar a Inglaterra a vencer. Mais de um ano depois, técnico e elenco ainda brigam com a mesma dúvida. A campanha da Nations League começa neste sábado, no Wembley, contra nada menos que a Espanha, campeã mundial — o adversário perfeito para medir o tamanho do problema.
O bronze que não consola
No verão europeu de 2026, a Inglaterra conquistou sua melhor colocação em Copas em 60 anos: o bronze, com uma vitória caótica e eletrizante por 6 a 4 sobre a França na disputa de terceiro lugar. Só que o troféu pesou pouco. Três dias antes, nas semifinais, os Three Lions abriram o placar com Anthony Gordon aos 55 minutos, sofreram a virada e caíram por 2 a 1 para a Argentina, com gol de Lautaro Martínez nos acréscimos.
A ferida ainda não fechou. "Sendo totalmente honesto, quando você perde algo de valor na vida, você nunca mais é a mesma pessoa", disse Gordon na quarta-feira. O capitão Harry Kane, veterano de duas finais de Eurocopa perdidas e do pênalti desperdiçado contra a França há quatro anos, foi além: "Essa doeu mais do que qualquer outra. Não parecia o time que queríamos ser."
Os números que entregam o problema
A semifinal contra a Argentina traiu tudo o que a FA pregava desde dezembro de 2014, quando lançou o projeto 'England DNA' em St George's Park — com Gareth Southgate entre os três autores do documento. A filosofia fala em "dominar a posse de bola de forma inteligente". Na prática, entre o gol de Gordon e o de Martínez, a Inglaterra ficou com 12% de posse e terminou o jogo com apenas cinco finalizações, o menor número em partidas de Copa em 60 anos.
O padrão se repete há tempos: 2018, virada da Croácia na semifinal; Euro 2020, derrota nos pênaltis para a Itália depois de abrir o placar; Euro 2024, final perdida para a Espanha — com a cena emblemática do arremesso lateral de Kyle Walker, faltando 15 minutos, que voltou até Pickford e acabou em arremesso de meta. A Inglaterra não mais tocou na bola por seis minutos. Logo depois, Mikel Oyarzabal marcou e decretou o título espanhol.
Gordon: "Somos ingleses, joguemos como ingleses"
Transferido do Newcastle United para o Barcelona, Gordon tem uma visão privilegiada do contraste cultural. "Não é da nossa natureza controlar jogos como os espanhóis fazem. Não tenho certeza de que isso possa ser ensinado", avaliou, antes de sugerir um caminho alternativo: "Talvez a gente jogue nos nossos pontos fortes: força física, jogo direto, contra-ataque."
Curiosamente, ele rejeitou a crítica às substituições defensivas de Tuchel na semifinal — inclusive a sua saída. "Nós, jogadores, poderíamos ter feito mais para controlar o jogo. Um técnico não deve responder por um milhão de decisões que acontecem ao mesmo tempo em campo."
Tuchel, por sua vez, parece disposto a negociar com o próprio DNA: "Talvez eu precise trocar um pouco do meu desejo de controle por mais caos. Abrace o caos." A convocação de Cole Palmer e Trent Alexander-Arnold, dois jogadores de grande qualidade com a bola, sugere que algo estava faltando — mesmo que o técnico negue.
A cruzada de dois anos
O desafio de Tuchel ganha contorno com a evolução da própria Premier League: a saída de Pep Guardiola, nove novos técnicos e um Arsenal campeão baseado em força física e bolas paradas. As boas notícias existem — a parceria entre Kane e Jude Bellingham na Copa foi devastadora. Mas a crítica que o próprio Tuchel fez ao herdar o time, após a Euro 2024 ("faltava identidade, ritmo, repetição de padrões"), segue válida.
Com a Eurocopa de 2028 sediada em casa no horizonte, a partida deste sábado contra a Espanha será o primeiro termômetro de uma reestruturação que precisa virar identidade — antes que o "quase" vire a marca eterna desta geração.
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